LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

sábado, 6 de junho de 2009

Celso Furtado, Euclides Neto e o projeto brasileiro de nação

Max Bandeira,19 anos, estudante de direito da UFBA, leitor ferrenho, escreveu este texto em dezembro de 2007.
Excelente a analogia que ele faz sobre o pensamento político de Celso Furtado e Euclides Neto.

Leituras do Brasil e da América Latina:

Terceiro-mundismo, Nacional-desenvolvimentismo e Neopopulismo

Max Bandeira

Celso Furtado e Euclides Neto discordavam fundamentalmente em relação ao projeto brasileiro de nação. Tratava-se especialmente de uma diferença de crenças no homem e no modelo capitalista. Euclides acreditava menos no capitalismo e no materialismo marxista; por conseguinte, não cria no desenvolvimento e na eventual superação da ordem burguesa por meios econômicos, mas humanos. Por seu turno, Furtado enxergava nesse modelo econômico a possibilidade de redenção, pelo desenvolvimento autônomo e combinado, dos povos latino-americanos, apesar das advertências de Trotski a respeito do capitalismo periférico.

Como se sabe desde Maquiavel, o modelo de projeção exterior de um Estado, advogado por cada um dos matizes ideológicos nacionais, depende da leitura que se faz da condição interna. Nesse sentido, a pouca crença nas estruturas da Guerra Fria teriam aproximado Euclides Neto do terceiro-mundismo de Gandhi ou mesmo de Fidel. Já Celso Furtado reproduzia a visão de um desenvolvimento nacional que fosse capaz de libertar o Brasil das amarras do subdesenvolvimento e da famigerada herança colonial. Mais no discurso do que na prática, a visão de Celso Furtado foi adaptada e readaptada pelo populismo de Vargas e Kubitschek e pelos generais da ditadura. O terceiro-mundismo também esteve presente, como ideologia secundária, nas estruturas populistas, especialmente, nas articuladas por Jânio (condecoração de Che Guevara) e Jango (aproximação com a China).

A modernização conservadora brasileira, baseada no modelo de substituição das importações, corroborou, por um extenso período (1930-1973), a tese de Celso Furtado e contribuiu para disseminação do paradigma fordista-keynesiano na economia nacional, tornando setor secundário o mais dinâmico do país. Entretanto, a crise desse paradigma nos países centrais, decorrida do esgotamento do sistema de Bretton Woods, com a crise do petróleo e a intensificação da competição internacional capitalista, graças à reconstrução do Japão e da Alemanha e à emergência da Terceira Revolução Industrial, levou o capitalismo central a uma resposta típica: o aprofundamento do sistema, através da globalização. Assim como as crises anteriores do capitalismo (portuguesa, espanhola, holandesa, francesa e inglesa), o sistema foi aprofundado, em lugar de ser superado. Com a globalização, as estruturas produtivas nacional-desenvolvimentistas do Brasil, fundamentadas no mercado interno e mantidas graças a sua proteção, entraram em declínio.

O sonho do “Brasil Grande”, propagandeado pelos generais, atrasou a percepção das mudanças estruturais que a globalização e a revolução cientifica e tecnológica trariam para a economia nacional. Do ponto de vista dos países centrais, o aprofundamento do capitalismo alterou a percepção do Brasil: de “país em desenvolvimento” passamos a “mercado emergente”. Mais uma vez, já partindo dos boxes, nós perdemos o bonde da história e, como retardatários, tivemos de deixar aqueles que saíram na frente passar para não atrapalhar a corrida. O resto da década do Milagre e toda a década dos Pacotes foram perdidos. A soma de políticas econômicas equivocadas penalizaram a sociedade como um todo, ampliando as desigualdades e levando à erosão o sonho de Celso Furtado. O capitalismo dependente se perpetuava em novas bases e, dessa vez, ameaçava, com os novos conceitos da reação conservadora de Reagan e Tatcher, também a soberania do país, tão prezada pelos militares.

Euclides Neto e Celso Furtado, então, passaram a concordar nesse ponto: a sobrevivência e o desenvolvimento do Estado-nacional brasileiro eram incompatíveis com as bases da evolução do capitalismo, preconizadas pela reação conservadora neoliberal. Nas palavras do segundo, em nenhum momento da história tinha sido tão grande a distância entre o que éramos e o que esperávamos ser. A redemocratização do Brasil colocou em pauta a transferência, para o povo, da fonte de soberania da nação, forjando uma democracia liberal. Todavia o Consenso de Washington e as ações dos governos da Nova República mostram que o conceito de soberania é anacrônico para as novas estruturas impostas pelo capitalismo central, que são aceitas pelo Brasil. Assim, embora a soberania emane do povo no momento da escolha do governante, ela é erodida pelas pressões do grande capital internacional.

Como se viu, a res publica foi privatizada e o processo de desorganização das estruturas produtivas do país não foi detido. Collor, observando a ordem econômico-tecnológica pós-fordista, disse que o carro brasileiro era uma carroça e abriu os portos ao capital imperialista. Então, voltamos a uma realidade neocolonial: grandes desigualdades nacionais e internacionais, sociedade espoliada, exclusão social, país dependente. Milton Santos, analisando a realidade socioeconômica da globalização, aproximou-se do pensamento de Euclides Neto sobre o capitalismo. Desde o começo, esse modelo caracterizou-se por ser uma guerra, que vem se globalizando, no sentido braudeliano da palavra, desde o século XV. Sendo uma guerra, a ética e a humanidade são conceitos de que se pode prescindir nesse sistema. Dessa forma, não é de se esperar que o capitalismo se reconstrua em novas bases, mas que aprofunde as existentes. Apesar disso, como diz o mesmo Marx do materialismo dialético e da superação do capitalismo, a solução para humanidade está no próprio homem.

A emergência do neopopulismo e do chavismo nas nações latino-americanas recoloca a questão do desenvolvimento nacional e reacende o debate do qual participaram Euclides e Furtado. Dessa vez, o espaço de manobra das economias dependentes está menor ainda, embora elas estejam se articulando em blocos de poder (Mercosul, G-20, IBAS, BRIC). A fé na recuperação capitalista, através da revalidação das bases de crescimento econômico e desenvolvimento social, da superação das funções simplistas atribuídas aos “mercados emergentes” – abrir espaço ao capital internacional, coibir o êxodo de migrantes para os paises centrais e servir de pulmão e lixo da sociedade ocidental – e da reorganização das estruturas políticas, tendo em vista a recuperação da soberania nacional, são desafio aos debatedores dessa nova ordem que se pretende implantar. A conciliação entre o que pensam Euclides Neto e Milton Santos (reconstrução profunda das bases éticas e humanas da sociedade ocidental) e Celso Furtado (desenvolvimento nacional para a superação da dependência) pode ser uma alternativa ao debate, que deve se estender por todas as sociedades dependentes.

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