LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

domingo, 8 de novembro de 2009

Oposição perdida apela para bordões vazios

As forças da oposição levaram a sério o artigo de FHC. Um de seus leais sócios, o colunista do Globo Merval Pereira, recém laureado com o mesmo prêmio que ganhou Lacerda nos anos 50 e Roberto Marinho no ano seguinte à sua campanha em prol do golpe de 64, repete os mesmos argumentos fernandistas.

Aos sucessos econômicos e sociais, a oposição quer contrapor agora o "atropelo aos bons costumes", e o "autoritarismo popular". É igualzinho, usando os mesmos vocábulos, ao discurso golpista de 64. A única diferença é que, onde se lia "comunismo", agora se lê "chavismo" ou "bolivarianismo".

Próceres da imprensa acusam a oposição de não fazer oposição, e indicam o caminho que esta deveria seguir; mas esses caminhos não apontam novidades. "A política, assim como a arte, deve sempre buscar o novo", dizia Tucídides, há mais de dois mil anos.

A oposição ao governo Lula, mais especificamente o PSDB, migrou para a direita raivosa, aliada à uma mídia historicamente golpista. Seu principal sustentáculo é um segmento da elite brasileira que, por sua vez, tem uma relação bastante dialética com a mídia: ele forma a mídia e, ao mesmo tempo, é formado por ela. Analisar como este segmento desenvolveu sua visão de mundo é a chave para se entender a prepotência beirando a insanidade de certos formadores de opinião e quadros partidários.

Em primeiro lugar, essa prepotência sinaliza debilidade e aponta para baixo, para o declínio. O artigo de FHC, por exemplo, é um choro antecipado de perdedor. O que significa o tal "autoritarismo popular", denunciado por FHC como o inferno para o qual Lula estaria conduzindo o país? Simples: mais uma vitória do povo brasileiro. Autoritarismo popular é o povo exercendo sua autoridade.

Por trás da comicidade pernóstica com que escreve FHC, pode-se vislumbrar como será o arrazoado oposicionista daqui para a frente. Pendurar-se-á cada vez mais na histeria antichavista, que terá de ser exacerbada até se tornar uma fobia social patológica, e na desconstrução simbólica de Lula - o que vem se mostrando uma tareja, no mínimo, inglória.

No afã de desestabilizar o governo e atingir Lula, setores da mídia e da oposição praticaram a tática de terra arrasada. Destruiram plantações, poluíram as águas e empestiaram a atmosfera, de forma que, hoje, vastos segmentos da sociedade passaram a ver a política como um universo corrupto em si, no qual não vale a pena se imiscuir. Esse quadro, é bom ressaltar, repete-se na maioria dos países ocidentais, nos quais as forças antidemocráticas, rechaçadas do poder pelo voto, refugiam-se no quarto poder, na mídia, onde se vêem protegidas do sufrágio popular.

O Leviatã, porém, jamais se contentará com este papel secundário. O poder midiático, embora tremendo, não lhe satisfaz. Sua ambição é recuperar o trono. A grande vantagem, para as forças populares, em existir um Fernando Henrique Cardoso, é que sua vaidade impede-lhe de usar estratégias mais sutis. Ele quer falar, e isso é sempre vantajoso para criar um debate político transparente. Por isso há tanto temor quanto à José Serra. Ele não possui transparência nenhuma. Não dá entrevistas, e quando as dá, não diz nada. Não toma posição. Sua reação ante qualquer problema é sempre o silêncio sepulcral - deixando que seus capangas midiáticos limpem o terreno e promovam o necessário esquecimento público.

Voltando à FHC, a sua denúncia sobre um "autoritarismo popular" apenas revela seu desejo impotente, corroído pela inveja, de recuperar o poder. É uma denúncia ridícula, ainda mais vindo de um intelectual que já foi (?) respeitado. Sim, porque as instituições democráticas brasileiras permanecem sólidas. FHC, em verdade, ecoa, ele sim, um sentimento antidemocrático, um repúdio visceral, aristocrático, ao poder popular. Todo poder, mesmo o democrático, é autoritário, porque poder significa autoridade, monopólio da violência, polícia, legislativo, judiciário. Mesmo o mais anarquista dos pensadores entende que a liberdade só existe em face da lei e da autoridade. A democracia, aliás, não é anarquia. Não é um não-governo. Democracia é simplesmente o governo exercido pela maioria, respeitando os direitos das minorias. Há algum sintoma real de que o espírito democrático esteja sendo questionado no Brasil? Não. Ao contrário, se você ler os livros de Wanderley Guilherme dos Santos, verá como a democracia no Brasil, hoje, é muito mais concreta, em termos estatísticos, políticos e morais, do que em qualquer outro momento da história brasileira. As instituições também nunca viveram um equilíbrio tão harmônico. De maneira que as acusações de FHC não passam de leviandade oposicionista.

É irônico que o mesmo Merval Pereira que defende o golpe de Estado em Honduras, e portanto defende o mais odioso autoritarismo não-democrático, aquele que fecha jornais, rádios, canais de TV não-alinhados, que violenta as mais básicas liberdades civis, que tortura inclusive nosso corpo diplomático, venha ecoar o disparate fernandista sobre um vago e futuro "autoritarismo popular, subperonista" para o qual estaríamos nos dirigindo, sob a liderança do presidente Lula.

Ontem eu vi um belo documentário, Rua Santa Fé, de Carmen Castillo, viúva de Miguel Henríquez, o líder do MIR assassinado pela ditadura chilena em 1974. Mais uma vez, somos confrontados com uma realidade que se estendeu por toda a América Latina. Aí sim tivemos autoritarismo. Não era um autoritarismo vago, em potencial, muito menos "popular". Era um autoritarismo truculento, covarde, assassino. E que foi aceito pelas elites e defendido pelas mesmas mídias conservadoras do continente que hoje se arvoram paladinas da democracia. Assistindo ao filme, lembrei das leituras que venho fazendo, sobre história. As teorias modernas de história entendem que o nosso passado é sempre uma reconstituição de valores, e que nesse processo se dá uma luta sangrenta de representações, de visões de mundo, onde sempre vence o mais forte.

Não é outra coisa o que ocorre hoje; por trás da luta para mostrar o que é democracia e o que é autoritarismo, insinua-se o mesmo embate registrado entre a ditadura e a resistência, todavia modernizado, enriquecido pelos erros do passado e pelas novas dinâmicas do presesente, carregado de novas dialéticas.

Ao mesmo tempo em que acusa nossa democracia, regida por um presidente oriundo das camadas mais humildes, que vem realizando uma gestão social e econômica extremamente bem avaliada pelo povo brasileiro e pela comunidade internacional, ao mesmo tempo em que acusa, eu dizia, a nossa democracia de caminhar para um "autoritarismo popular", sabe-se lá o que seja isso, FHC (e o resto da mídia também) silenciou-se vergonhosamente sobre o revisionismo criminoso da Folha de São Paulo, que tentou emplacar o conceito de "ditabranda" ao nosso regime militar. Pior ainda, parte da mídia (Jabor, Merval, Veja) tentou qualificar um golpe de Estado, desta vez em Honduras, como "golpe democrático"... Aliás, FHC não tinha nada a dizer sobre essa nova onda de golpes de Estado chancelados pela mídia?

Talvez esteja na hora de, em vez de autoritarismo popular, acusarmos um monstro muito mais nocivo à democracia e à estabilidade política e econômica da América Latina: o autoritarismo midiático, que prejudica seriamente a equidade eleitoral dos candidatos, bagunça as políticas de saúde pública, desinforma e portanto deseduca as massas, dá orientações estéticas artificiosas (elitistas, de um lado; popularescas, de outro), e alijou quase que completamente a discussão acadêmica e científica de seus salões.

Acesse oleododiabo.blogspot.com
.

Nenhum comentário: