LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

domingo, 15 de novembro de 2009

Ponto de Cultura Adilson Duarte

Uma fábula diferente



Vou contar uma história, que ouvi de minha mãe, que ouviu de minha avó e que, muitos de nós já ouvimos de tantas outras mães e avós espalhadas pelo mundo.

Em um imenso jardim habitavam em harmonia muitos bichos. Bichos grandes e pequenos, que voavam, andavam ou rastejavam e que moravam em tocas, ninhos e buracos. Era verão e durante todo o dia, trabalhavam incansavelmente todos eles: cortavam, transportavam e armazenavam alimento; pois o inverno naquelas paragens era rigoroso e quem não se precavesse certamente padeceria.

No entanto, o labor não era de todo fatigante. Os bichos trabalhavam alegremente embalados pela música da cigarra, que com seu violão pousava em um galho numa árvore próxima e cantava durante todo o dia. O momento era bom, o verão era festivo e a cigarra era amiga de todos.

Seus amigos, aliás, volta e meia alertavam-na: “Dona Cigarra, deixe de lado essa coisa de música, de cultura, venha trabalhar como nós todos fazemos”. A cigarra se sentia envergonhada por alguns instantes, um peso e uma culpa por não estar na lavoura com os outros insetos pesavam sobre suas asas de celofane.

Mas, no outro dia, lá estava ela a cantar e alegrar a natureza. Ninguém conseguiria pensar um jardim sem a afinadíssima cigarrinha, que cantava de graça, sem cachê, sem nada. Cantar para Dona Cigarra era a única coisa que importava. A música era sua vida. Nasceu para aquilo e por aquilo morreria. Era mais forte que ela! Diferente dos outros cantores da natureza, como o grilo ou a esperança, que tinham outros meios de vida e cantavam por tantos motivos e se calavam por cautela, medo, cansaço. Também nunca teve palco e público, com tanta pompa como os artistas famosos: sabiá, canário e rouxinol, já com fama internacional. A cigarra cantava porque seu corpo pedia.

Chegou o terrível inverno e os bichos se abrigavam em suas casas, no conforto e tranqüilidade que seus trabalhos lhes proporcionaram. Menos a cigarrinha. Sem salário, nem cachê, a pobre cigarra possuía apenas seu talento e seu violão. Não tinha cartão de crédito, nem nunca pôde fazer um financiamento de uma casa pela Caixa. Sem eira, nem beira, a solução foi pedir. Procurou formigas, borboletas, lagartas, besouros. Em todas as portas que bateu, reprovação. A palavra mais leve que ouviu foi vagabunda. “Está vendo? Nós te avisamos que fosse trabalhar, mas quer viver de fazer cultura... Não vai a lugar algum. Poderia ter sido uma formiga engenheira ou uma abelha com produção em cooperativa, qualquer coisa que desse para sustentá-la”. Sem ter como sobreviver e sem auto-estima, a Dona Cigarra se lamentou por ser uma artista.

Desde criança, somos catequizados por histórias e canções que nos mostram a produção cultural como um aspecto menor e nunca como uma profissão, um modo de vida. Viver e fazer cultura são “coisas de marginal, desocupado...” Assim, crescemos com este pensamento incorporado às nossas opiniões, achando normal e justo que “Pai Francisco” só porque entrou numa roda de samba tocando seu violão, seja conduzido à prisão por “seu delegado” e espancado como um bandido. Delegado, aliás, que deve ter sido o mesmo que quebrou a cabeça do “Samba Lelê”, que só porque queria ser sambista estava merecendo umas boas palmadas.

Aquela nossa fábula se passa em nossos dias num jardim qualquer na Bahia. E a nossa cigarrinha, ao contrário de tantas outras cigarras, atores, artistas plásticos e cantadores, que morreram à míngua nos invernos culturais que sempre os afligiam - foi amparada pela Secretaria de Cultura, e, mesmo contra a vontade dos gafanhotos e traças, que viviam de comer os investimentos públicos em cultura do Estado, acabou montando um Ponto de Cultura em seu jardim.

Recentemente, as aranhas - que também têm um Ponto de Cultura voltado ao artesanato – organizaram um encontro da Teia dos Pontos de Cultura. Nele, a nossa Dona Cigarra se apresentou com um coral de pequenas cigarrinhas, suas alunas. Foram aplaudidas de pé. Alguma coisa começou a mudar.

Texto: Júnior Pinheiro*
*Membro da Executiva dos Pontos de Cultura da Bahia,
Representate Territorial dos Pontos de Cultura (TMRC),
Coordenador de Comunicação do PCAD.

http://pontodeculturaipiau.blogspot.com/2009/11/uma-fabula-diferente.html
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