LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

sábado, 24 de setembro de 2011

Dos insensatos e dos omissos

Aurélio Munhoz
23 de setembro de 2011 às 15:19h

Você provavelmente não tomou conhecimento, não ao menos por meio dos principais veículos da imprensa nacional, das duas notícias seguintes. A primeira: a pesquisa coordenada pelo professor André Trindade, da Unopar (Universidade do Norte do Paraná), a respeito do grau de conscientização social e política de alunos do ensino médio de escolas públicas de Londrina (PR), Chapecó (SC) e Passo Fundo (RS).

Citada pelo colega Zé Beto no blog (http://zebeto.jornale.com.br/), a sondagem revelou números assustadores, ainda que estejamos falando de jovens. De acordo com a pesquisa, em um universo de 1.012 entrevistados, 70% não sabem quais são seus direitos sociais; 78% desconhecem o que é a Constituição Federal de 1988; 40% ignoram os Três Poderes; 68% não têm muita noção do que faz um deputado estadual; e 70% não sabem o que é a democracia, muito menos como exercê-la.

A segunda notícia também é uma sondagem, desta vez encomendada pelo jornal Gazeta do Povo, feita pelo Instituto Paraná Pesquisas. O jornal quis conhecer o humor dos paranaenses sobre os governos da presidenta Dilma Rousseff e do governador do Estado, o tucano Carlos Alberto Richa.

Os dois dados mais significativos deste levantamento são igualmente assustadores, assim como os da pesquisa anterior: 70% dos entrevistados não souberam dizer ou não citaram nenhuma realização dos dois governantes nos oito primeiros meses de mandato. Mesmo assim, 80% deles avaliaram as duas administrações como ótimas/boas ou regulares.

Não é o caso de se fazer juízo de valor a respeito das opiniões dos jovens sobre temas complexos, que muitas vezes gente desta idade ainda não compreende direito, como o arcabouço constitucional do País ou a organização política do sistema federativo. Nem de se analisar se os adultos que compõem a amostragem da segunda pesquisa têm ou não razão no seu posicionamento favorável aos governos Dilma e Richa.

O eixo deste artigo é outro: o desinteresse e a desinformação de parte expressiva da sociedade brasileira a respeito dos atores da política nacional e, por extensão, pela própria democracia representativa. E mais: a recusa da imprensa em debater este tema com a seriedade e a profundidade que o assunto merece.

En passant, já abordamos este assunto em outro texto, no mesmo espaço generoso que a Carta Capital nos concede. Voltamos ao tema para lembrar que estamos a um ano das eleições municipais de 2012 e que, mantido o atual grau de ojeriza da sociedade brasileira em relação aos políticos, teremos mais do mesmo nas câmaras municipais e prefeituras. Ou coisa ainda pior. Em bom português: o desprezo da sociedade pelos profissionais da desonestidade travestidos de homens públicos não atende a nenhum interesse, senão dos próprios políticos.

Mas não é apenas nisto que reside nossa preocupação. O papel assumido por grande parte da mídia neste processo também é deplorável. Não que tenha causado estranheza o fato de a grande imprensa nacional ter praticamente ignorado as duas notícias. E não se diga que o motivo foi o fato de as informações terem origem no Paraná. Afinal, ao sabor das conveniências, a imprensa é célere na conversão de assuntos locais em notícias nacionais.

A verdade é que notória a repulsa de grande parte da mídia à divulgação de temas que reportem a questões de fundo, sobretudo quando exigem que se trave um debate sobre assuntos delicados, como o baixo grau de conscientização política da Nação. Para esta gente, melhor mesmo é tratar de perfumarias no menu de notícias que oferecem á patuléia. E enfiar goela abaixo das pessoas os escândalos envolvendo celebridades instantâneas, atletas e políticos, que dão mais audiência – e sobretudo mais dinheiro.

É hora de a sociedade brasileira levar a política mais a sério. Não exatamente pelos políticos que possui, mas por si própria. Ignorar a política, baseada na falsa premissa de que todo governante e legislador é corrupto, é pura insensatez.

Igualmente, porém, está na hora de a grande imprensa cosmética brasileira deixar de ser omissa na execução do seu papel de promover um debater sério e consistente sobre a Política, os políticos, a cidadania e a democracia.

Boa parte da atual cepa de políticos faz por merecer o tratamento raivoso que recebe da imprensa, mas converter suas maldades em espetáculo de horrores para levantar a audiência não basta para tornar esta Nação melhor. Ainda que defensável, há uma boa dose de canalhice na prática de se ganhar dinheiro às custas do denuncismo. Como diria o colega Ricardo Kotscho, imprensa não é polícia e nem juiz, ainda que uma das suas atribuições seja denunciar as mazelas do Estado.

Para cumprir sua função social, a imprensa precisa ir além da espetacularização da notícia. Precisa usar seu poder de multiplicação para estimular a reflexão e o debate – sobretudo à base da pirâmide social – sobre o País que somos e desejamos.

A Carta Capital tem feito isso, aliás, ao veicular – seja na edição impressa, seja na internet – textos que vão muito além do registro factual dos acontecimentos. E, ainda, ao desenvolver o projeto Diálogos Capitais, uma série de encontros regionais, envolvendo diversos setores da sociedade civil, destinados ao debate e à apresentação de propostas sobre as grandes questões das agendas política e econômica nacional.

A conquista da cidadania é um processo lento e doloroso, como ensinava o mestre Raymundo Faoro. Não será obtida, portanto, a curto prazo e sem sacrifícios de todos – sociedade e mídia.

Não encarar este necessário desafio nos compara aos passageiros da “nau dos insensatos”, alegoria citada tantas vezes por literatos e artistas para descrever os habitantes do planeta que passam pela vida sem saber exatamente a razão de estarem aqui. A eles, tudo o que importa é viver por viver, mesmo que sem sentido. O desafio que compete ao Brasil que desejamos é se recusar a este destino.


Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da ONG Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná. Endereço no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz.

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