LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Coisas do Américo



Fonte: Blog de Marcelo Martins Por: José Américo Castro
Assim falava Cassiano

“Peida, peida, peida…mas sem medo!”

Assim, ao sol pino do meio dia, Cassiano bradava seu grito de guerra em protesto à falta de um sino na Igreja Matriz de São Roque. A cena se repetia cotidianamente em dois horários (12 e 18 horas),na Praça Rui Barbosa,ao lado do ponto de táxi,junto a um poste de luminária.

Com uma pedra, ou qualquer outro material sólido,Cassiano,estimulado por algumas talagadas da mais pura destilada de Jacó,batia no poste de metal oco que reproduzia um som parecido com o badalar do sino. O gesto virou rotina durante um bom tempo dos anos 80 (século XX).

Obrigação, devoção, capricho, promessa… Talvez pirraça. Mas, ao certo, era protesto. E dos brabos. 
Cassiano em seu habitat favorito: a margem do Rio das Contas
Quando o padre Xavier despontava na praça, o repicar do improvisado sino intensificava e a palavra de ordem também: ”Peida, peida, peida!”. Em contra ponto o autor do protesto filosofava: ”Ninguém é de ninguém” e prosseguia indignado: ”Isso é uma vergonha! “

O pároco fugia de Cassiano como o diabo foge da cruz. Santa Inquisição às avessas: o bruxo caçando o clérigo, provocando a Igreja a cumprir sua obrigação. E assim continuou enquanto a Igreja Matriz de São Roque esteve sem sino.

Garrafadas

Magro, alto, mais para mulato, cabelo liso em desalinho, cabôco,como diz o povo, figura singular (pois outro igual é impossível), Cassiano Melo de Oliveira, era realmente um bruxo. Senhor das “garrafadas”, curava doenças venéreas que a rapaziada contraia com as quengas dos “Dez Quartos”,mas precisamente no ramal do “Pinga Pus”, onde se encontrava rameiras mais baratas.

Passando o ramo, rezando de olhado, pagando promessa na Lapa, aonde ia todos os anos em romaria num pau de arara , Cassiano estabelecia o seu estigma de folclórico.

Conhecedor dos mistérios do rio, ele também era pescador. Sabia dos poços mais profundos, dos remansos onde os piaus moravam, das locas dos pitus e dos acaris mais graúdos.Tinha fôlego invejável, levava minutos submerso, explorando as profundezas , se encontrando com entidades, identificando-se com as lendas.

Crendices

Cassiano tinha preocupações com o futuro do principal manancial hídrico da região e costumava profetizar em argumentos ambientalistas: ”Do jeito como estão tratando, desmatando e sujando, o Rio de Contas um dia vai desaparecer”.

Tanto no Rio das Contas, quanto no Água Branca ,Cassiano expandiu sua fama de bom mergulhador e assim salvou muitas vidas , inúmeras… Quando não tinha a oportunidade de salvar, conseguia resgatar os corpos afogados. Em alguns casos usava crendices: uma cuia tendo no seu interior uma vela acesa, era veiculo preciso para indicar o local do poço onde estava o corpo.


Singular e Plural

Engraxate, com cadeira na porta do Bar de Fran,vendedor de amendoim,contador de estórias,amigo das autoridades,embora nunca tivesse sido beneficiado por estas, pegador de cobras (tinha reza certa contra o veneno do bicho), solitário, exótico, cheio de segredos,Cassiano era singular e plural.

Os meninos da rua, os adolescentes atiçados, freqüentavam a alcova de Cassiano, um obscuro quartinho próximo ao Restaurante Galo Vermelho, na Mira Rio, que também era o consultório onde ele examinava o paciente e receitava as famosas garrafadas.

“Comendo água”,Cassiano não levava desaforo para casa.Grande bombas de fabricação caseira ele deixava explodir em sua mão e nada lhe acontecia,nem mesmo um arranhão.Mostrava assim seu poder,sua invulnerabilidade folclórica. E não cansava de desafiar a ordem estabelecida com a sua militância anarquista: ”peida,peida,peida,” reforçada pelo estimulo à coragem: “ mas sem medo, pois ninguém é de ninguém”.

Nascido no município de Laje (Vale do Jiquiriçá), em 15 de novembro de 1912 e falecido em Ipiaú,no dia 17 de junho de 1998,Cassiano Melo de Oliveira, fez a sua historia nesta cidade. Suas façanhas até hoje são lembradas pelos seus contemporâneos.

A bronca que Cassiano tinha do padre Xavier desapareceu quando o então deputado Ewerton Almeida,o popular “Tom Legal”,doou um novo sino à Igreja Matriz. A missão estava cumprida,os protestos cessados.Afinal “ninguém é de ninguém”. Assim falava Cassiano.

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Um pouco da história de Ipiaú. 
Obrigada Zé Américo.
Elinalva

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