LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Neri: não entramos no século 21, mas saímos do 19

*CartaCapital: Quais os principais números da recente onda de inclusão
social no País?*

*Marcelo Neri: Desde o lançamento do Plano Real até dezembro de 2010, no
fim da década passada, a pobreza caiu 67%. Desde o governo Lula, caiu 50,6%
nos dois mandatos. Lula fez 25 anos, ou seja, a meta do milênio de reduzir *
*a pobreza à metade, em oito anos. E desde quando Fernando Henrique era
ministro da Fazenda reduziu 31%. Então, caiu 31% e, depois, 50%, o que dá
67% de queda, dois terços da pobreza no Brasil. O primeiro passo foi o
controle da inflação, e o investimento pesado em educação lá atrás. Em
1990, o Brasil tinha 16% das crianças de 7 a 14 anos fora da escola.*
*Em 2000, tinha 4%. Agora tem menos de 2%. Na década passada, houve
redução da desigualdade e mais emprego formal, com carteira assinada. Na
minha visão, são os dois maiores méritos de cada década (de 1990 e 2000). A
*
*desigualdade e o emprego com carteira são bastante influenciados tanto
pela estabilização quanto pela educação. E, obviamente, também devido a uma
política social ativa. O Bolsa Família talvez seja o maior exemplo e
descende também lá do Bolsa Escola. Então teve uma continuidade
interessante, macroeconomicamente, em política social, em educação… Até o
primeiro mandato de Lula a gente não andou para frente em educação, mas no
segundo mandato retomamos a agenda de educação, que foi além com Fernando
Haddad.*
*CC: Quais os avanços mais recentes?*
*MN: Em 2010, para se ter ideia, a pobreza caiu 16%, foi algo espetacular.
Também porque foi ano eleitoral e de saída da crise. Aqui, a crise, por
sinal, não foi tão forte, mas ela aconteceu. O Censo acabou de confirmar: a
renda dos 50%*
*mais pobres cresceu 68%, entre 2000 e 2010. A dos 10% mais ricos cresceu
10%. Desde 2003, no primeiro ano do governo Lula, a gente mudou de patamar
em geração de emprego. Já em 2004, inclusive, e veio acelerando. A *
*gente, que vivia no voo da galinha, ano bom, ano ruim, conseguiu ter
vários anos bons de crescimento – não excepcionais. Mas anos excepcionais
em redução de desigualdade. Outro dado importante é que 39 milhões de
pessoas subiram à classe C. O Brasil tem um pouco um espírito de Ayrton
Senna, anda bem debaixo das *
*chuvas e trovoadas internacionais.*

*CC: Como andou a desigualdade nos países centrais nas últimas *
*décadas?*

*MN: Aí há algum paradoxo. Dentro dos países a desigualdade aumentou. Em
todos os países europeus ela também aumentou, desde 1985, com exceção de
França e Bélgica. Nos Estados Unidos, ela vai aumentando desde a era Reagan.
*
*CC: E não parou mais de crescer?*
*MN: Não para de aumentar. O protesto em Wall Street, por sinal, é baseado
nessa situação. Na Índia e na China, está crescendo muito a desigualdade. E
em outros países emergentes também, menos nos latino-americanos, o que é
realmente um dado novo. E o Brasil está dentro desse contexto
latino-americano. Então existe certa convergência da *
*desigualdade no mundo: quem tinha muita passou a ter menos, como nós da
América Latina. E quem tinha meno , como a Europa e mesmo os Estados
Unidos, embora não tão menos, bem mais do que a Europa, aumentou.*

*CC: Voltando ao Brasil, qual segmento social ficou para trás?*

*MN: A renda em São Paulo, de 2000 a 2009, cresceu 7,2% (em termos reais
per capita). A renda no Nordeste cresce 42%. Em Sergipe, estado em que mais
cresceu, o aumento foi de 58%. No campo a renda cresceu 49% e nas *
*metrópoles, 21%. Entre as mulheres aumentou 38% e entre os homens, 16%.
Para os negros 43%, ante 21% para os brancos. Entre analfabetos cresceu
47%. Para as pessoas com pelo menos o superior incompleto caiu 17%. Ou
seja, para todo mundo que é pobre cresceu a renda. O que é difícil para nós
que não estamos na base percebermos. A gente olha e fala: a renda desse
cara era de 300 reais, agora é de 500, mas o que mudou? Para o cara é uma
revolução, e é realmente. Essa redução da desigualdade é a grande marca
brasileira dos últimos dez anos. E ela *
*continua, não tem nenhum sinal de que desacelerou. Pode até parar (de
cair) com a crise, como parou em 2009, mas voltou, não andou para trás.
Obviamente ainda será preciso ver os dados da crise atual.*

*CC: Os que ficaram para trás são da chamada classe média tradicional?*
*MN: Acho que sim, essa é uma boa classificação. Quem era classe média
tradicional, perdeu. Acho que o Brasil dos últimos anos é o seguinte: boas
e más notícias. A boa é que a desigualdade caiu. A má notícia é que a
classe média tradicional não entrou na festa. O espetáculo do crescimento é
só a preços populares, é um pouco isso. Não tenho essa visão de muita gente
que diz que o Brasil entrou no século XXI. A gente está saindo do século
XIX, é uma abolição da escravatura retardada. Está saindo de um país muito
desigual muito rápido, mas recuperando um atraso grande.*

*CC: O que explica isso?*

*MN: Foi uma queda do retorno da educação. Por que a renda cresce na base
da pirâmide? Pense no filho do peão. O pai dele era analfabeto ou
analfabeto funcional. Ele foi lá, estudou, chegou ao ensino médio e não
quer ser peão como o pai. Aí a demanda por pessoas pouco educadas aumentou
muito. Tem mais gente com ensino médio, chegando ao ensino superior, com
qualidade questionável da educação, é verdade, mas tem mais concorrência.
Quem tem um diploma deixou de ser tão valorizado. E quem não tem diploma
passou a ser valorizado porque são poucos, e tem muito trabalho braçal.
Então tem o fator educação e o fator programas sociais. É o dinheiro para
as pessoas lá na base, o Bolsa Família.*

*CC: Qual a sua expectativa em relação ao reajuste do salário mínimo,
válido a partir de 1° de janeiro?*

*MN: O efeito do mínimo é pequeno no combate à desigualdade. Sou muito mais
fã do Bolsa Família. E crítico do salário mínimo. Até mostrei, 16 anos
atrás, o importante papel que o salário mínimo teve para reduzir a pobreza *
*depois do Real. Mostramos que a queda de 40% da pobreza foi no mês que o
salário mínimo teve um forte reajuste, maio de 1995. Só que esse efeito foi
embora. E agora claramente o Brasil vai entrar em um ano em que deveria
fazer algum"dever de casa" nas contas públicas, mas pegará o efeito do
Pibão (crescimento de 7,5% do PIB) de 2010 e automaticamente jogar para o
salário mínimo de 2012. Não é uma fórmula razoável, acho inclusive que os
analistas econômicos aceitaram alguma coisa muito ruim para o País. Tem um
efeito desastroso nas contas e não tem um *
*efeito tão positivo sobre a desigualdade.*

*CC: O Bolsa Família continuará relevante?*

*MN: Quem tem preocupações fiscais deveria gostar do Bolsa Família. Acho
que a gente está com uma nova geração, até tenho participado aqui no Rio e
em Curitiba do desenho de programas complementares ao Bolsa Família, que
usam o cadastro único do Bolsa Família. Aqui no Rio existe o Família
Carioca, um programa municipal que atende 500 mil famílias, criado pela
Claudia Costin, que é excepcional, com avaliações bimestrais. Criamos um
prêmio para os alunos pobres que melhorarem a nota. E estamos começando a
ver os resultados. E são resultados interessantes. O governo do estado está
fazendo a mesma coisa. Isso é o que eu gosto de chamar de um novo
federalismo social, com vários níveis de governo começando a atuar na área
de educação, com metas de educação. O Brasil tem efervescência, somos uma
democracia vibrante… Veja lá nos países árabes, eles estão numa
transformação, mas é uma transformação bélica, traumática. Veja a Europa,
mesmo antes da crise… Aqui no Brasil a gente está com esperança, é uma
sociedade em movimento. Morei há 30 anos na Africa do Sul e tive
oportunidade de voltar lá recentemente. E tive exatamente a mesma sensação
lá, embora haja problemas bem complicados. Talvez esse seja o aspecto mais
fascinante de morar no Brasil atualmente.*

*CC: Quais os maiores riscos em termos objetivos para a luta contra a
desigualdade?*

*MN: Não fazer as reformas. O Brasil gerou muito emprego formal. Mas
imagine se a gente tivesse uma legislação trabalhista mais ajeitada. Porque
o Brasil tem um Estado grande e há uma preferência da população por isso.
Acho*
*que o Brasil está optando por um caminho do meio, mesclando Estado com
iniciativa privada, respeito a contratos, fazendo uma política ativa. Agora
se a gente usar essa rede do Estado para prover serviços bons, de forma
transparente, além de todo esse problema da corrupção que a gente tem de
resolver. De alguma forma estamos encaminhando isso, a sociedade está. Vai
depender da nossa capacidade de superar obstáculos*.

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