LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ressignificando a vida - família, Estado, ética, saúde, ações afirmativas, direitos...


Peço licença para compartilhar uma história real e atual que, por trazer tantos ângulos de reflexão que nos faz ressignificar a vida, o sentido de nossas ações, a nós mesmos.
 
É uma história de Brasil e de brasileiros, de pessoas que simplesmente se negam à sucumbir a narrativa única do "não adianta fazer nada, todos são corruptos mesmo".
 
Para que histórias como essa tenham o poder de gerar a novidade em nosso modo de ver o mundo, a sociedade em que vivemos e ações as escolhas que tomamos, compartilho com todos.
 
Fui aluna deste Juiz, hoje Procurador da República, ser humano que tanto estimo, profissional que tanto admiro.
Eles me autorizaram a divulgar as postagens. Boa leitura. Marluze

Relato de um Juíz, hoje Procurador da República.
(Esse relato foi postado no facebook, pelo autor em 26.01.2013.
Sua aluna respondeu em 27.01.2013)



"Sobre as ações afirmativas e a vida:

Em 1998 ou 1999, quando eu exercia o cargo de Juiz de Direito, fui surpreendido, ao voltar para a Comarca, com a notícia de um crime grave. Um motorista de caminhão, bêbabo, havia atropelado, na BR, uma mãe e sua filha. A menina faleceu e a mãe, que perdera o braço, estava às portas da morte. Poucos quilômetros após, ele ceifou a vida de mais uma pessoa, que teve a má sorte de cruzar com o seu caminho.
A Polícia havia liberado indevidamente tanto o criminoso quanto seu veículo, pressionada por um outro Juiz de Direito, que era, segundo dizem, parente do dono da transportadora.
Esta senhora , que era espancada por seu marido alcoólatra, se recuperou e resolveu lutar pela punição do autor desses crimes. Descobriu que o veículo tinha sido levado para reparos em uma concessionária de Guanambi, o que possibilitou que eu requisitasse da seguradora o procedimento interno de reparação do sinistro e, com ele, pudesse realizar ao menos a perícia indireta. Bastante debilitada, ela ia seguidamente ao fórum, pedindo a única coisa que lhe era devida: Justiça.
Antes da Lei Maria da Penha, determinei o afastamento do lar do marido agressor e, em termo circunstanciado, fiz com que ele frequentasse os alcoólicos anônimos. Designei e presidi as audiências do crime de trânsito, mas por força das delongas de nossa sistemática processual, não consegui ver o resultado final do caso. Fui chamado para tomar posse como Procurador da República, minha verdadeira vocação, e nunca mais soube do caso.
Na semana passada, ou seja, catorze anos após, tive a grata surpresa de descobrir que a filha sobrevivente dessa lutadora frequenta uma de minhas classes de Direitos Fundamentais. Vinda de uma cidade pequena do interior, ex-aluna de uma escola filantrópica, é possível que sua presença na UFBA se deva a uma ação afirmativa. Ações afirmativas que são tão criticadas por pessoas que, como eu, nunca tiveram um terço das dificuldades que a família dessa discente padeceu.
Pensando nisto tudo, na importância das ações afirmativas, na ideia de Justiça, nas oportunidades fantásticas que a docência nos fornece e, para usar um chavão, nas voltas que a vida dá, resolvi escrever este breve texto, para compartilhar esta história."
 
Abaixo a resposta da aluna:
 
"Professor,
Sempre admirei a sua inteligência, o seu conhecimento, mas jamais imaginaria que o Sr. tinha feito parte da minha vida e tinha sido tão justo, como minha mãe me falou. Quando aconteceu este acidente eu tinha 13 anos e como também estava nes
te acidente, minha mãe evitava me levar nas audiências.
Ao ler seu relato, fiquei sem palavras, chorei, e mais ainda admiro a sua memória, pois foi exatamente assim que aconteceu.
Sou cotista e se não fosse as cotas jamais estaria no curso de Direito na UFBA, não tenho vergonha de dizer isto, pois cada dificuldade que tive me fez crescer e é por isso que posso dizer que tenho experiência e vontade de vencer, de fazer o bem, assim como o Sr. fez com a minha família. Apesar de não ter estudado como uma criança comum, de estudar apenas nos momentos que estava na sala de aula, de ter de trabalhar desde criança, de ter saído de casa antes de completar a maioridade, de ter vindo para Salvador enfrentando as dificuldades e tendo que trabalhar para me manter, passei na UFBA assim que conclui o ensino médio no curso de Biblioteconomia, passei em Administração no IFBA, fiz 3 semestres de Serviço Social na UFRB, mas o que sempre quis mesmo era fazer Direito e na UFBA (curso que tentei 4 anos), isso para fazer diferente daquele outro juiz que forçou a libertação do réu culpado pela morte da minha irmã e pela deficiência da minha mãe, e de certa forma proteger crianças que passam pelo que passei, pois naquela época as maiores vitimas eram eu e meus irmãos, já que sofríamos sem entender o porque de tanta desgraça.
O que o senhor não sabe é que além de alcóolatra, e espancar minha mãe, ele também espancava os filhos, eu, meu irmão e principalmente minha irmã que faleceu, nos explorava trabalhando na zona rural, não queria que nós estudássemos. Já passei fome, meu pai já quis até nos matar, já atirou no meu irmão e na minha mãe, não os atingindo graças a Deus, colocou soda na comida para que comêssemos, entre tantas outras fatalidades.
Ir a escola era meu refúgio, lembro-me que um dos melhores momentos da minha vida foi quando um juiz (o senhor) determinou que meu pai frequentasse o AA, lembro que minha irmã disse assim "Inha (meu apelido), painho agora vai melhorar né?", mas infelizmente depois do acidente e que o Sr. saiu de Riacho ele voltou a fazer as mesmas coisas, principalmente a agredir minha mãe, meu irmão revoltado saiu de casa com 17 anos e foi morar/trabalhar em São Paulo.
Hoje estou na UFBA, faço parte do Saju (assim ajudo pessoas), faço pesquisa pelo Permanecer (Programa de Permanência da UFBA, para cotistas) sob orientação da professora Isabela Fadul, sou assistida pela PROAE, isso desde o meu 1º semestre.
Não tenho palavras pela sua declaração, fato é que sou muito grata pelo que o Sr. fez, e grata a Deus por ter me dado a oportunidade de te conhecer, de ser sua aluna.
As marcas que ficaram em meu corpo e na minha memória são menores do que a vontade de fazer deste mundo algo melhor, sorte que pelo meu caminho apareceram pessoas abençoadas, verdadeiros anjos, que amenizaram os impactos do sofrimento e por isso impediram que meu irmão e eu nos envolvêssemos com coisas erradas."


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