LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O som do preconceito ao redor


O som do preconceito ao redor


O premiado longa-metragem “O som ao redor” do cineasta Kleber Mendonça Filho, que aborda os conflitos sociais a partir de um quarteirão do Recife não me sai da cabeça. A vinculação com o caso da jornalista Micheline Borges, do Rio Grande do Norte, que viralizou no facebook uma pérola de racismo explícito (“Me perdoem se for preconceito, mas, essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo?”) sobre as médicas cubanas que chegaram para o programa Mais médicos é recorrente em minha cabeça. O ambiente criado no filme, apartamentos novos, pintados, com televisores de tela plana, pode ser de qualquer lugar. O que muda é a divisão entre senhores e escravos.

Na Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Nordeste, Brasil inteiro, a cena das empregadas domésticas e babás vestidas de uniforme é padrão. São escravas, herança do sistema patriarcal e escravagista tão bem descrito em Casa Grande & Senzala  Babás mestiças de bebês loiros são verdadeiras mucamas. Antes eram escravas, hoje são exploradas pelo salário. A cultura escravagista é muito forte no Recife, e também no Rio Grande do Norte, bem como no resto do Brasil. O filme não chegou a abordar, mas a reação da classe média contra a lei passou a garantir direitos trabalhistas para as empregadas domésticas. Nem precisava.
Médicas brancas que vaiam colegas cubanas em aeroportos, jornalista que agride médicas cubanas comparando-as com “aparência de empregadas domésticas”, casais ricos, pais de bebês de olhos azuis, que freqüentam restaurantes com babás uniformizadas de branco, são cenas comuns que ilustram nossa cultura escravagista, da qual não conseguimos nos libertar. Claro que “O som ao redor” retrata também o conflito de classe, a luta de classe do capitalismo urbanizado, assim como captura sinais sutis de mudanças na postura das classes pobres em relação aos ricos. Uma explicação, para o cineasta Kleber Mendonça Filho, é a quebra de paradigma da era Lula, um presidente que promoveu distribuição de renda. “Hoje, ser pobre não é uma vergonha”. De fato, no filme, nenhum trabalhador abaixa a cabeça para o patrão.

“O som ao redor” merece ser visto – é sucesso de bilheteria – até porque nos faz lembrar de nossa cultura escravagista entranhada nas mentes e corações. E pode fazer com que gente como a jornalista Micheline Borges (branca e loira) sinta vergonha, muita vergonha.

Nenhum comentário: