LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A DEGRADAÇÃO MORAL DA OPOSIÇÃO E A AUTOFAGIA PETISTA

Jaime Amparo Alves



JAIME AMPARO ALVES
Se é verdade que o “pacto social” de Lula da Silva beneficiou a gregos e troianos, ele também empobreceu o debate político, “marinando” parte da sociedade em um discurso conservador de concertação nacional



Credita-se ao general prussiano Carl von Clausewitz a famosa frase, "a guerra é a continuação da política por outros meios". Se estivermos de acordo com essa assertiva, não será novidade o aumento da artilharia tucano-midiática contra o governo da presidenta Dilma Rousseff e contra o Partido dos Trabalhadores. Previsível. O que chama a atenção no atual debate é a desumanização total da oposição. De Marina Silva a Aécio Neves, a oposição ao governo defendeu as ilegalidades perpetradas por Joaquim Barbosa na ação penal 470 e condenou as manifestações de solidariedade aos dirigentes petistas presos. 
O PSDB também se uniu ao coro das denúncias de suposto uso de celular por José Dirceu na prisão, e mesmo depois das inúmeras medidas protelatórias, o Partido se mantém imbatível em sua insensibilidade. Mais recentemente, deputados do PSDB e PPS, membros da Comissão de Direitos Humanos (sic!) da Câmara visitaram o ex-ministro, na Papuda, para disseminar um discurso de raiva contra um homem já publicamente linchado pela mídia. O PSDB quer mais. Aécio Neves se junta a Paulinho da Força, em ato público, na defesa da prisão da presidenta Dilma Roussef. 
Nem Eduardo Azeredo nem Pimenta da Veiga. Os rumos da Ação Penal 470 são, eles mesmos, um diagnóstico cruel da pobreza moral e falência ética do PSDB. A oposição se apequenha e se desumaniza em um ódio contra adversários políticos tratados como inimigos mortais. Perde a chance de exercer a nobreza humana e a coerência com os valores que supostamente defendem. Que os partidos políticos à esquerda do PT tenham silenciado sobre as arbitrariedades da AP 470 também demonstra a reduzida compreensão entre adversários políticos e inimigos.   
E a mídia? Ah... o PT nutre um amor patológico pela mídia corporativa. É a síndrome de Estocolmo, em que o sequestrado se apaixona pelo sequestrador, como eu já disse em texto anterior aqui em Brasil 247. A mídia grande nutre um ódio mortal pelo ex-presidente Lula e pelo PT, em que pesem a enxurrada de anúncios oficiais, o pagamento de juros camaradas para o capital especulativo, a vista grossa às dívidas milionárias com a receita federal.... É um crime político a omissão dos governos Lula e Dilma sobre um assunto tão caro à esquerda brasileira: a concentração dos meios de comunicação. Talvez, aconselhados por Paulo Bernardo (o amigo da Globo), Aloysio Mercadantes (o bajulador da Folha de S. Paulo) e alguns outros, o PT acredite que seja possível um pacto com a mídia corporativa.  
Talvez aí esteja a explicação, por exemplo, para a renovação de um contrato de revistas “Escola”, ás vésperas do ano-novo de 2014, com a feroz editora Abril. Talvez aí também esteja a explicação para o governo manter intocáveis os anúncios ( “critérios técnicos”?) em jornais e revistas como Folha de S. Paulo, O Estadão, Veja, Época...,mídias em declínio absoluto como mostrou as pesquisas de mercado encomendadas pelo próprio governo. A mídia quer mais e um quarto mandato petista não está em seus planos.   A Agencia PT de Notícias, concebida como uma resposta ao massacre midiático atual e´ o exemplo cabal da ausência de uma estratégia comunicacional no PT e no governo. Um site feio, anacrônico e sem sentidos, que só a militância fiel vai acessar. Ou se o leitor preferir, o PT quer rezar missa para padre. 
Poderíamos facilmente acrescentar outros exemplos aquí, como a ausência de uma estratégia governamental de comunicação com os brasileiros sobre os recursos dos royalties do petróleo (quem sabe o que e´ isso?) para a educação. Quais são as projeções para os próximos anos? Qual a estimativa de repasse para meu município? Se a Polícia Federal e´ um órgão do governo federal, por que os ministros da Justiça e CGU não aparecem em cadeia nacional para explicar (e defender) as operações? Na ausência de paternidade no combate a corrupção, e´ a mídia quem faz esse papel reivindicando para si as acoes do governo.   
Lula tem razão em afirmar que os seus adversários criticam o PT por suas virtudes, não por seus defeitos. Então as críticas cabem aos “amigos” do PT. O Partido se auto-devora em uma espécie de autofagia política. Por um lado, não tem coragem de enfrentar o debate sobre a concentração  dos meios de comunicação, mas persegue as rádios comunitárias e investe milhões em propaganda e contratos com seus maiores algozes. Por outro lado, ao contrário da Venezuela, de Chaves, e da Bolívia, de Morales, o PT acredita que pode e deve governar sem o povo. Em visita recente a Bolívia, não pude deixar de ver nas ruas a militância do MAS (o partido de Evo Morales) pautando o debate, discutindo os projetos políticos, formando uma opinião pública alternativa ao discurso da mídia. A Misión Barrio Adentro, na Venezuela, nao leva apenas mais médicos e mais educação para as barriadas da grande Caracas. O programa se converteu também em espaço estratégico para rediscutir o país, ler o Capital, forjar novas alternativas revolucionárias. 
Se é verdade que o “pacto social” de Lula da Silva beneficiou a gregos e troianos, ele também empobreceu o debate político, “marinando” parte da sociedade em um discurso conservador de concertação nacional. Quem é esse sujeito político, a “nova classe média”? O PT não antecipou que muitos dos milhões de indivíduos beneficiados pelas políticas de crédito fácil, de acesso a universidade, entre outros, assumissem também eles (por que não?) os valores de uma classe média raivosa que nas palavras de Marilena Chauí é abominável do ponto de vista político, ético e cognitivo. Que não me interpretem mal. Programas como o Bolsa-Família e o ProUni são a milésima parte do que a sociedade e o Estado brasileiro devem aos pobres. Deixemos para o PSDB e sua turma o discurso perverso que mede os programas sociais como gastos supérfluos e considera os beneficiários do programa como ignorantes políticos. 
Eles são, na verdade, agentes políticos que estão eles próprios mudando o Brasil, como mostra a distribuição geográfica do voto presidencial nas três últimas eleições. Mas a ausência de uma estratégia petista para a “nova classe média” dá uma dimensão do porquê da surpresa com boa parte das manifestações de junho de 2013, e pode ajudar a entender a dificuldade que se avizinha no cenário eleitoral de 2014. A surpresa também evidencia o calcanhar de aquilles do PT: indisposto a questionar os pressupostos do capital, o PT quer simplesmente incluir os pobres na sociedade de consumo, um modelo de sociedade suicida. Que pobreza de imaginação política! 
O PT deveria aprender de Fernando Henrique Cardoso. Ele deu um xeque-mate ao seu partido: ou o PSDB toma um banho de “povo” ou vai ficar para sempre na oposição. Essa é uma tarefa quase impossível, dada a vocação anti-povo, anti-negros, anti-classe trabalhadora da Social Democracia brasileira. Mas o conselho não é tão sem sentido e oxalá o PT leve a sério, pelo menos (e tão somente) desta vez, as palavras do presidente-sociólogo.  Ou o PT governa com o povo, ou será oposição. 
FONTE: Brasil 247

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