LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

domingo, 13 de julho de 2014

Da catástrofe à possível transformação


Duas análises distintas mas importantes depois da derrota frente à Alemanha.
Agora nos resta torcer por uma mudança profunda da CBF? Será que ela virá? 


Da catástrofe à possível transformação


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Antes que se dissipe totalmente névoa do espanto e vergonha, é possível começar a pensar numa mudança radical do futebol brasileiro
Por José Geraldo Couto, no blog IMS
Tudo bem: o nocaute de ontem doeu, ainda dói e continuará doendo por um bom tempo. O trabalho desse luto não tem dia nem hora para terminar. Mas, mesmo antes que se dissipe totalmente a névoa do espanto e da vergonha, é possível começar a pensar e tentar acreditar numa mudança radical do futebol brasileiro. Usar a catástrofe de forma pedagógica, produtiva, transformadora.
A maneira mais eficaz de barrar uma refundação saneadora do nosso futebol é apontar o dedo para algum bode expiatório: "culpa do Felipão", "culpa da Dilma", "culpa do Zúñiga", "culpa do Mick Jagger". Extirpa-se o culpado e voltamos a ser os melhores do mundo. Evidentemente, não é assim que funciona.
Para começar a entender as razões do fracasso brasileiro talvez seja útil observar, por contraste, as razões do sucesso alemão.
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Revolução silenciosa alemã
Quando a Alemanha perdeu a final da Copa de 2002 para o Brasil, os dirigentes esportivos do país decidiram iniciar um processo de renovação e preparação de longo prazo para voltar a conquistar um título, algo que não acontecia desde 1990. O ex-artilheiro Jürgen Klinsmann assumiu como treinador e chamou como diretor técnico da seleção o também ex-atleta Oliver Bierhoff, que segue até hoje no posto.
Pois bem: a Alemanha perdeu em casa a Copa de 2006 (ficou em terceiro) e não houve tragédia. Klinsmann saiu, mas deixou no lugar seu assistente, Joachin Löw, que obteve também a terceira colocação na Copa de 2010, na África do Sul, e continuou no cargo.
De 2006 até hoje, sob o comando de Klinsmann/Löw/Bierhoff, a seleção alemã viveu um processo contínuo de abertura para os naturalizados e filhos de imigrantes, beneficiando-se do surgimento de uma talentosa geração de atletas. Manteve o mesmo elenco-base e a mesma filosofia de jogo – troca de passes, deslocamento permanente, inversão de posições entre jogadores polivalentes – desde a Eurocopa de 2008 (na qual foi vice) até hoje.
No Brasil, no mesmo período (e praticamente desde sempre), as coisas se deram de modo radicalmente distinto. Com o fiasco na Copa de 2006, atribuído pela mídia e pelo torcedor comum ao excesso de estrelismo e de dispersão do "quarteto mágico" (Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Adriano), passou a vigorar uma filosofia austera e militarista, encarnada na dupla Dunga-Jorginho. Futebol bonito passou a ser visto como frescura. A ideia do jogo como guerra, da "pátria em chuteiras", passou a vigorar com mais força do que nunca. Concentração e cara feia eram mais valorizados do que o talento e a competência técnica.
Sebastianismo e pensamento mágico
Com o fracasso de Dunga e sua equipe na África do Sul e, depois, a passagem anódina de Mano Menezes pelo comando da seleção, a CBF recorreu a um traço nunca assaz estudado do imaginário popular: o sebastianismo. Quem foi o último treinador a conquistar um título mundial para nós? Luiz Felipe Scolari. Então está resolvido: como o redivivo rei Don Sebastião, Felipão voltaria das brumas do passado para nos conduzir à glória.
Quer dizer: enquanto a Alemanha apostou no planejamento e na preparação intensiva, o Brasil apostou no pensamento mágico, na manipulação dos sentimentos mais primários dos torcedores. Até quando vai durar essa crença de que a mera camisa amarela mete medo no adversário, de que entrar em campo com a mão no ombro do companheiro da frente, como uma fileira de prisioneiros, e gritar o hino com lágrimas nos olhos faz o time jogar melhor?
Mas talvez haja uma camada ainda mais profunda de problemas abaixo dessas trapalhadas de superfície. No período de que estamos falando houve uma dramática escassez de craques nos gramados brasileiros, sobretudo os de meio de campo, responsáveis pela organização e criação de jogadas. Nos melhores tempos do futebol brasileiro, sempre foi esse o nosso ponto mais forte. O que foi feito dessa estirpe que teve Didi, Gérson, Ademir da Guia, Rivellino, Falcão?
Proibido pensar
Em algum momento parece que nossos treinadores e dirigentes caíram na falácia de que o futebol moderno não precisa pensar. Pelo contrário: pensar atrapalha. Bastam preparo físico e disposição.
Há razões estruturais para essa escassez. Uma delas é a saída precoce de nossos jogadores mais talentosos, vendidos para clubes da Europa e da Ásia quando ainda estão em formação. Rompe-se assim a cadeia de aprendizado coletivo que deu ao longo das décadas consistência ao estilo brasileiro de jogar futebol, que encantou o mundo e hoje parece cada vez mais distante. Alguns exemplos concretos: no Santos, Zito passou o bastão a Clodoaldo; no Botafogo, Didi o passou a Gérson.
Os jovens talentos que permanecem no país são logo moldados, desde as categorias de base, ao futebol-brucutu de correria e "pegada" que tem tornado nossos jogos tão feios e desinteressantes. Formam-se zagueiros vigorosos, volantes de contenção, atacantes velozes. Mas os meias de criação são desprezados como coisa do passado, resquícios de um futebol romântico que já não existe. É fato que, no mundo todo, são cada vez mais raros os Pirlos e os Zidanes. Mas estamos na vanguarda da destruição dessa categoria de artistas.
Desperdício de talentos
Para agravar o problema, no nosso caso, os poucos meias extraordinários surgidos nas últimas décadas no Brasil foram, por um motivo ou por outro, desperdiçados em termos de seleção brasileira. Refiro-me a Djalminha nos anos 90, Alex na primeira década do século 21, a Paulo Henrique Ganso agora. É certo que eles não foram apenas vítimas dessa exclusão, mas contribuíram para ela de maneiras diversas: rebeldia sem causa, apatia, timidez. Mas o fato é que a paciência com eles, por parte dos treinadores da seleção, sempre foi muito menor do que com outros atletas de muito menos qualidade e mais "comprometimento" (leia-se, mais submissos ao paternalismo/autoritarismo reinante).
Enfim, para encerrar esse arrazoado que já vai longo e que ficou mais técnico do que eu esperava, eu diria que o desastre de ontem no Mineirão é a oportunidade que temos para amadurecer na marra, para fazer com que nossa seleção deixe de ser uma "família" composta por atletas infantilizados em torno de um pai caloroso e castrador e se torne aquilo que deve ser: uma forte equipe de futebol.



Tem gente que não entendeu nada

"Tentando faturar com derrota de 7 a 1, oposição diz que brasileiros precisam aprender a fazer "sacrifícios." Pode? 

Paulo Moreira Leite, ISTOÉ

Nem o general Octávio Costa, que escreveu alguns discursos de Emílio Médici, titular do pior período da ditadura militar, seria capaz de produzir as linhas que seguem abaixo. 
Centro da agitação eleitoral do PSDB, o Instituto Teotônio Vilela divulgou uma análise sobre a derrota de 7 a 1 com linhas inacreditáveis. Leia alguns trechos. .
Num parágrafo, procura-se comparar traços culturais de alemães e brasileiros para dizer que...
" A histórica derrota sofrida pela seleção pode servir como lição para que o Brasil se torne um país melhor. A vitória alemã representa o triunfo da técnica, da disciplina, do método e do rigor sobre o improviso, o descompromisso e a fé em que, no fim, tudo vai dar certo, porque, afinal de contas, Deus é brasileiro e conosco ninguém pode."
Também se combate o otimismo de uma população, que jamais comungou do pessimismo de suas elites – o que era reconhecido por Tancredo Neves – para falar da " maior goleada da história do futebol mundial. Um vexame de proporções homéricas. Será que isso não nos diz algo sobre o que acontece quando abdicamos de fazer o que é certo apostando que, ainda assim, no fim nada vai dar errado?"
Numa exibição de quem pretende usar desgraças do futebol para ganhar pontos na política, mas não conhece uma coisa nem outra, afirma-se:
"O pior que pode acontecer agora é ignorar que o fiasco da seleção deve muito à forma com que os problemas são enfrentados no país. (...) Sem sacrifícios. É o cúmulo da cultura da esperteza, que só nos afunda, mas não está presente apenas no esporte.  Pelo contrário." 
É assim, sem sutileza, que se pretende transformar um jogo de futebol em metáfora da situação política. Tratando brasileiros como adeptos da " cultura da esperteza", que querem se dar bem " sem sacrifícios." 
A ideia do brasileiro como formado na " cultura da esperteza" está no Zé Carioca, personagem colonial de Walt Disney, certo?
A ideia de que os brasileiros querem o sucesso " sem sacrifícios" é tipica de quem acha que o salário mínimo está alto demais e precisamos de " medidas impopulares." É grotesco.  
Cumpre lembrar que unir futebol e política é um exercício sempre perigoso. A gloriosa seleção do Tri de 1970, a melhor de todos os tempos, foi formada quando o país vivia sob o pior regime de todos os tempos. Era o auge da tortura, das execuções, da perseguição política. Era uma economia que crescia – mas concentrava renda e ampliava a desigualdade entre os brasileiros. O jogo de Pelé, Tostão, Gerson & os outros era um retrato do futebol Brasil da época. Sua melhor geração na historia.  
Mas atuava em outra esfera, ou estratosfera. 
Não serve como elogio a tortura – como tentava fazer a propaganda Ame-o ou Deixe-o. 
A Seleção do Brasil de 2014 é um retrato de nosso futebol. Era um time que jogava aos trancos e barrancos, que contava com a sorte,caneladas e gols estranhos para avançar e chegar até onde fosse possível. Nunca prometeu mais do que isso -- embora fosse possível, como já aconteceu em outras copas, imaginar um resultado melhor. 
Comparar o 7 a 1 do Mineirão com o Brasil real é um exercício primário de marketing e ignorância política. 
Até porque é preciso ter perdido todo contato com a realidade social e econômica do país para imaginar que a partir de 2003 o Brasil sofreu, como nação, qualquer coisa que possa ser comparada a uma goleada. A renda está melhor distribuída. O desemprego é um dos mais baixos do mundo. O ensino superior nunca cresceu tanto – nem de forma tão rápida.E as escolas técnicas? E a política de habitação popular?   
Vamos olhar para o que é importante. Futebol é símbolo, ensina a metáfora Patria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues.  Aumenta nossa alegria, o afeto, a vontade de rir. Mas não pode encobrir a realidade cotidiana, nem para o bem, nem para o mal. 
Mas o esforço para transferir o 7 a 1 para o cotidiano dos brasileiros está em outros lugares.
Lendo apenas as manchetes dos jornais de hoje, você encontra palavras humilhantes: "Vergonha, vexame, humilhação." Ou: " Um vexame para a eternidade." Ou: "a partir derrota da história." Ou ainda: "Humilhação em casa." 
Vamos combinar. Há momentos em que é preciso separar a vida real da literatura – ou do futebol. 
Foi Alberto O. Hirshman, intelectual social-democrata do pós-Guerra, muito citado nas obras da pré-historia do PSDB, que criou o conceito de fracassomania. 
Enfrentando a resistência  a todos esforços políticos para criar leis e realizar reformas capazes de atender aos interesses da maioria, Hirshman explicava que o  principal argumento conservador de nossa época não é discutir o que está certo, nem o que está errado – mas convencer a população de que as mudanças, mesmo bem intencionadas, estão pré-condenadas ao fracasso. 
Nunca darão certo, diz a teoria, porque cedo ou tarde os interesses maiores do sistema vigente serão  capazes de retomar seus direitos e reverter aquilo que foi conseguido. O resultado, assim, é que toda tentativa de progresso está destinada a dar errado – e não passa de desperdício de tempo e energia.Pretende ajudar mas acaba atrapalhando quem pode resolver as coisas -- isto é, o mercado. O melhor fazer, conclui a fracassomania, é deixar tudo como sempre esteve ao longo dos anos e anos.  
 Essa é a ideia por trás das frases do dia. Querem nos convencer que o país estava ao passo da gloria – mas acabou derrotado porque ainda não se tornou suficientemente alemão, atitude que "representa o triunfo da técnica, da disciplina, do método e do rigor sobre o improviso, o descompromisso e a fé em que, no fim, tudo vai dar certo, porque, afinal de contas, Deus é brasileiro e conosco ninguém pode." 
Sabendo de nosso complexo de vira-lata, não supreende que tenha uma gente que é louca para deixar de ser brasileiro. Traumatizados, querem virar alemães sem sequer pedir licença para a turma de Angela Merkel. 
Não querem ganhar uma eleição mas prentendem mudar uma cultura. No fundo, não gostam de futebol. Seu deprezo é tamanho que num texto partidário, de quem está querendo votos,falam mal da entrada de Bernard em campo. Pode? 
É uma gente que não entendeu nada, certo?"
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