LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Marina Silva encontra Luís Bonaparte – Por Celi Pinto*

Marina-Silva




Marina Silva encontra Luís Bonaparte – Por Celi Pinto*

“A Sociedade 10 de Dezembro pertencia-lhe, era obra sua, ideia inteiramente sua. Tudo mais que se apropria é posto em suas mãos pela força das circunstâncias; tudo mais que faz é obra das circunstâncias ou simples cópia dos feitos de outros.” **

O livro de onde foi retirada a citação acima começa com uma das mais famosas frases, entre as tantas que seu autor deixou para a História: “Hegel observa, em uma de suas obras, que todos os fatos e personagens de grande imponência na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”

Estou falando, como o leitor certamente já se deu conta, de Karl Marx e seu magistral livro “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”. A descrição da França entregando-se ao sobrinho de Napoleão, Luis Bonaparte, é uma das mais sofisticadas aulas de história política da modernidade e, o que é mais importante, esta obra tornou-se uma ferramenta fundamental para análise de diferentes conjunturas históricas do Estado Burguês.

No Brasil, estamos frente a um fenômeno que expressa, em muitos aspectos, a dramática França do sobrinho Bonaparte. Evidente que não há império a declarar, nem perigo de rompimento da ordem institucional. Mas, de resto, temos o Bonaparte das circunstâncias.

Poderíamos parafrasear Marx afirmando: A Rede Sustentabilidade “pertencia-lhe, era obra sua inteiramente sua. Tudo mais que se apropria é posto em suas mãos pela força das circunstâncias; tudo o mais que faz é obra das circunstâncias ou simplesmente cópia dos feitos de outros”.

Luís Bonaparte foi ele e suas circunstâncias, assim como Marina Silva é ela e suas circunstâncias e elas são muito parecidas. Partidos políticos desmobilizados, desmoralizados e batendo cabeça, confundindo-se em propostas repetidas e sem conteúdo, um governo fustigado pela crítica da mídia e incapaz de interpelar as parcelas da população para a qual dirigiu grande parte de suas políticas, uma massa de eleitores despolitizados pelo recorrente discurso de que a política é o pior dos mundos. E uma palavra mágica a martelar todo o tempo : mudança! Precisamos mudança para quê? Por quê? Onde? Em que setor? Não importa, importa é prometer mudança.

O bonapartismo, como muito bem observou Marx, precisa de uma massa desorganizada, sem visão política, voluntarista, que não consegue ver ou fazer política além de seus mais primitivos e privados interesses. Esta massa esteve nas ruas, nas manifestações de junho de 2013, negando-se a identificar-se como grupo. Não era algo mais do que um amontoado de indivíduos carregando cartazes feitos em casa para manifestar sua indignação pessoal e – já que estamos falando de Marx – pequeno-burguesa. Entre eles havia grupos organizados, mas foram minoritários e deixaram as ruas para não serem confundidos com aqueles que aceitavam quase tudo.

Pensando no eleitorado, é possível, a grosso modo, traçar um quadro da seguinte forma: os que foram para a casa quando as manifestações tomaram rumo claramente conservador juntam-se aos muitos que ficaram em casa e formam os 35% de eleitores de Dilma; os grupos de esquerda mais radicalizados e minoritários, que se mantiveram nas ruas e enfrentaram a polícia, votam no PSOL, PSTU , PCO ou simplesmente se negam a votar. A massa, que era contra tudo e não pensava politicamente, estava à espera de um líder que aparecesse como o novo, a mudança esperada, qualquer que fosse. A fatalidade (ou talvez a mão divina, como quer a própria candidata) colocou Marina Silva como o novo, numa espécie de repetição da tragédia Collor de Mello. Mas não é de Collor de Mello que Marina é uma farsa, ela é uma farsa de si mesma.

Marina já foi lutadora das causas amazônicas com Chico Mendes, já foi militante do PT ligada à Igreja Católica, já foi senadora da República, ministra do Meio Ambiente, quando lutou contra o agronegócio, foi para o PV , mudou de religião, tornou-se evangélica da Assembleia de Deus, fez declarações contra as pesquisas da célula tronco, brigou com o PV, tentou criar um partido todo seu – a Rede Sustentabilidade, hospedou-se no PSB, ganhou lugar de candidata à presidência da República “por intervenção divina”, roubou o programa neoliberal de Aécio Neves, deu a mão ao agronegócio e se apresenta como aquela que juntará os bons, se afastará dos maus, como se tivesse o poder de, acima de todos, definir quem são eles. Certamente são os que não têm partido, nem opinião própria, nem limites para estarem junto ao poder.

Marina Silva é o Luís Bonaparte da vez, com um discurso balofo, pretensamente ingênuo e bem intencionado para o povo das ruas e outro neoliberal e comprometido com o agronegócio e o setor financeiro para as elites econômicas.
Ao se dirigir à Assembleia Nacional, em 1851, Luís Bonaparte afirmou: “Abri-vos sinceramente o coração; respondereis a minha franqueza com a vossa confiança, aos meus bons propósitos com a vossa cooperação, e Deus se encarregará do resto.”

Estamos à beira de um novo 18 Brumário. A reflexão que precisa ser aprofundada é: como chegamos até esta farsa?

* Cientista Política, professora do Departamento de História da UFRGS

**Todas as citações foram retiradas de:
MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Rio de Janeiro: Editora Vitória, 1956

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