LULA 2018

"Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo", diz Emir Sader, em resposta aos que já o apontam como ameaça à democracia, de olho em 2018; "Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia"

REVISTA BR247 EDIÇÃO #29 - 6 DE MARÇO DE 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Acorda, esquerda!

Acorda, esquerda!

militontos
Há alguns dias participei de uma ampla e plural reunião de movimentos sociais, sindicais, partidos de esquerda e ativistas digitais em que foi discutida a conjuntura política do país e uma agenda comum para as forças progressistas da sociedade.
Fui a essa reunião acreditando que a pauta seria a ascensão do fascismo no Brasil. Qual não foi a minha surpresa quando comecei a ouvir propostas sobre direitos civis que constituem agenda para anos e que não tocaram na ruptura democrática que está ocorrendo no país.
Ao meu lado, na reunião, o escritor Palmério Dória (O Príncipe da Privataria, Geração Editorial) grunhia de insatisfação. A certa altura comentou comigo, entredentes, o autismo da esquerda diante da gravidade do momento político.
Eis que chega a minha vez de falar e pergunto o óbvio, aos presentes: “Será que dá tempo de fazer tudo isso que vocês estão propondo, antes que o golpe seja dado e o Brasil retroceda à Idade Média por ação do fundamentalismo cristão de ultradireita que está dominando o cenário político?”
Palmério interveio para apoiar a minha fala: “A pergunta é essa: será que dá tempo?”
A maior surpresa da reunião ficaria por conta de uma liderança histórica do PT que estava presente e que demonstrou um nível de alheamento da realidade que me deixou estupefato.
O petista histórico proferiu uma pérola que não vai entre aspas porque reproduzo de memória: disse que não considerava que há uma ascensão do fascismo e que o termo não deveria ser usado pela esquerda para não “desgastá-lo”. E perguntou o que pretendem pessoas que perguntam se haverá tempo para mudar a agenda do governo, abandonar o ajuste fiscal, propor pautas em favor de homossexuais, negros, mulheres etc. para, só então, alguém decidir apoiar a legalidade institucional e reagir ao golpe.
Palmério se ofendeu mais do que eu, que estou mais acostumado à empáfia de certa esquerda que se acha dona da verdade suprema e que olha de cima quem consegue enxergar qual é a verdadeira luta do Brasil neste momento – que é barrar a ascensão do fascismo e um golpe de Estado “branco”.
Nessa reunião, confirmou-se percepção que eu já tinha de que há setores da oposição de esquerda, sobretudo no PSOL, que acreditam que serão favorecidos se Dilma for derrubada, se Lula for preso e se o PT for dizimado.
Essa gente acha que sem o PT para votar todo o eleitorado do partido vai descarregar seus votos no PSOL, que tem 2 ou 3 deputados, 1 senador e que, entre outras coisas, propõe estatização do sistema financeiro…
Para coroar a reunião não poderia faltar quem propusesse protesto “contra o Levy e o ajuste fiscal” enquanto a ultradireita promove atentados a bomba contra a maior liderança de esquerda da história brasileira, por exemplo.
Fiquei sabendo, naquela reunião fatídica, por exemplo, que o MTST “não pode” apoiar o governo Dilma porque todas as suas reivindicações não foram atendidas. E, recentemente, o MST invadiu sede do Ministério da Fazenda no Distrito Federal.
Será que o MST ou o MTST fazem a mais pálida ideia do que será deles em um governo tucano que, sem dúvida, contaria com o apoio da mídia, do Judiciário, do Legislativo, do Ministério Público e da Polícia Federal?
O MST e o MTST ocupam latifúndios e propriedades urbanas usadas como reserva de valor por uma ultradireita que quer tirar o PT do poder e destruir Lula. Será que esses movimentos fazem ideia do que esse governo despótico do PSDB faria com eles?
Seriam dizimados, assim como o movimento sindical e tantos outros movimentos sociais.
Na manhã desta quarta-feira, 5 de agosto, conversei por telefone com um importante jornalista e blogueiro que fez uma revelação revoltante, mas que me animou porque essa pessoa chegou a defender as malditas “jornadas de junho”.
Esse amigo relatou que um expoente do Movimento Passe Livre – bando de idiotas que abriu as portas para o fascismo que se vê crescendo no país – anunciou que está se dissolvendo. Meu interlocutor disse a seguinte frase: “Tocaram fogo no país e agora saem de fininho”.
Bingo!
Apesar disso, ainda há quem tente vender a tese de que as “jornadas de junho” serviram para alguma coisa além de terem feito o fascismo e o golpismo saírem do armário. Só não dizem para que serviu tudo aquilo…
Poucos dias após a liderança histórica do PT ter dito que não havia fascismo no país, o Instituto Lula sofre um atentado a bomba e José Dirceu é “re-preso” sem uma só razão jurídica aceitável – sem flagrante, sem provas, sem julgamento, sem juiz e sem júri.
A única coisa que pode fazer o fascismo e o golpismo recuarem é o enfrentamento pelos democratas. A esquerda unida teria capacidade de fazer esse enfrentamento. Poderia ocupar as ruas e dar uma resposta à altura aos fascistas.
Naquela reunião, porém, ouvi da tal liderança histórica do PT que se o golpe for dado ou se Lula for preso, aí, então – e só então –, haverá reação da esquerda em uníssono. Ou seja: a esquerda poderá até se mexer, mas quando for tarde demais.
Quem é do campo de esquerda ou centro-esquerda e acha que poderá lucrar de alguma forma se seus desafetos do mesmo campo forem esmagados, enlouqueceu. Se conseguiram fazer o que estão fazendo com um partido como o PT e uma liderança como Lula, o que não farão com uma Luciana Genro da vida?
Ah, mas os psolistas são anjos de candura, todos são puros como bebês recém-nascidos, dirão. Ora, mas quem disse que é preciso alguma razão concreta e inquestionável para assacar acusações de “corrupção” contra esquerdistas, no Brasil atual?
Por outro lado, vemos pessoas progressistas dizerem-se “desanimadas” e dispostas a se omitir por conta de que “o PT não reage” ou porque “o Zé da Justiça” blábláblá, blábláblá, blábláblá.
É de cair o queixo.
Senão, vejamos: suponhamos que prendam ou matem – ou ambos – todos os petistas. Agora, nesse futuro hipotético, o golpe já foi dado. Será que vão parar por aí?
O Congresso, agora sob liderança do governo tucano-midiático, aplicará a terceirização do mercado de trabalho, reduzirá a maioridade penal até sabe-se lá que idade – alguns falam em 10 anos de idade -, o Banco Central se tornará “independente” para ser gerido pela banca nacional, extinguirão cotas raciais e sociais nas universidades, a homofobia ganhará apoio maciço do Legislativo, a repressão a movimentos sociais produzirá um Pinheirinho e um Eldorado dos Carajás por semestre….
Você que se omitiu por ter ficado “desanimado”, trate de ir praticando autocensura. Do pós-golpe em diante, não será mais dono de dizer o que pensa sobre política e terá que rezar para não haver caça às bruxas contra aqueles que, no passado, professaram ideias de esquerda.
Venho fazendo alertas à esquerda desde junho de 2013. Jamais fui ouvido. Aliás, além de não ter sido ouvido tornei-me antipático até para pessoas com as quais mantinha relação de amizade. Tudo por dizer lá atrás o que qualquer pessoa sensata pode enxergar hoje.
Seja como for, cumpre-me, pelo papel que me dispus a desempenhar, mais uma vez fazer um alerta: ou a esquerda acorda e se une em defesa de Lula, do PT e do governo Dilma Rousseff ou será tão ou mais dizimada do que foi durante a ditadura militar.
Quem viver, verá – se não houver reação como a proposta.

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